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(A) :: Joe Salgado fugiu da torre norte do World Trade Center e virou à direita. Os quatro colegas que viraram à esquerda morreram

Joe Salgado fugiu da torre norte do World Trade Center e virou à direita. Os quatro colegas que viraram à esquerda morreram

Joe Salgado trabalhava no 47.º andar da Torre Norte no World Trade Center. Naquela manhã, conseguiu fugir do banco com mais três colegas. Uma decisão tomada por instinto salvou-lhe a vida.

Judite França
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Ricardo Conceição
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Um carro dos bombeiros, uma ambulância e um veículo de socorro ajudam a compor um solene triângulo, palco da homenagem da comunidade portuguesa às vítimas dos ataques de 11 de setembro. Ao final da tarde de sexta-feira, ouve-se português na confluência da Ferry Street com a Wilson Avenue, em Newark, New Jersey. Manhattan fica a meia-hora. Estes portugueses, que hoje colocam a bandeira nacional a meia-haste, também têm uma história para contar.

É o caso de Joe Salgado, um dos poucos sobreviventes portugueses do 11 de setembro. Trabalhava no 47.º andar da Torre Norte e conseguiu escapar do edifício com vida. Tinha chegado cedo ao trabalho no banco First Union. “Era um dia lindo. Lembro-me tão bem”, afirmou à Rádio Observador, entrevistado na emissão especial desta sexta-feira à tarde em Nova Iorque. Aos 65 anos, Joe Salgado recorda vividamente essa terça-feira, dia 11 de setembro de 2001. “Chegava cedo ao banco, entre as 7h30 e as 8h00. Dependia do trânsito, mas era um dos managers e, como manager, queria sempre chegar antes do pessoal”. Nesse dia fatídico não foi diferente.

Tinha começado uma reunião há poucos minutos quando sentiu um estrondo que fez abalar a torre. Do piso onde estavam, não se aperceberam logo do que tinha acontecido. Teria sido um embate na torre, mas pensaram num pequeno avião ou helicóptero. Mesmo assim decidiram começar a descer as escadas. Foi quando chegaram ao 22.º andar que ouviram muito barulho. Foi o momento em que o segundo avião se despenhou contra a torre sul.

Joe reúne-se todos os anos no dia 11 de setembro com os colegas que estavam juntos naquele dia no escritório. Esteve várias vezes no Ground Zero e assinalou lá o 10.º e o 20.º aniversário, mas não este ano. “Já faleceram 13 amigos. Ainda é um grande choque para todos”, justifica.

Quando chegaram ao piso zero havia mais do que uma saída. Quatro colegas decidiram virar à esquerda. Joe e mais três funcionários viraram à direita. “Ainda hoje não sei porquê. Não sei por que virei à direita”, admite. Mas essa decisão salvou-lhe a vida. Os quatro colegas que foram pelo outro lado já não conseguiram sair.

Joe Salgado cruzou a rua e olhou para as torres. A segunda começou a ruir. “Começámos a correr pela rua abaixo o mais rápido possível. Não conseguíamos ver nada, tal era o pó nos olhos. Um bombeiro deu-nos uma garrafa de água, limpámos a cara e fomos a pé até Brooklyn”. Só mais tarde encontrou uma cabine telefónica e ligou para casa — para dizer que estava vivo. Durante todo esse tempo não faziam ideia se Joe tinha escapado. “Quando chegámos a Staten Island, houve uma carrinha que nos viu e parou. Viu que estávamos cobertos de pó e levou-nos a New Jersey”. Por essa altura, o mundo já estava em choque. Joe Salgado ainda não sabia exatamente o que tinha acontecido e só com a família, e com o que ia passando nas rádios e nas televisões, teve a verdadeira noção da tragédia a que tinha conseguido escapar: “Tive uma sensação de gratidão”.

Maik Alexandre começou por ir no carro da polícia, a fazer de batedor, para que as ambulâncias chegassem o mais rapidamente possível a um dos cinco hospitais que existiam em Newark na altura. “Fiz esse percurso mais de 60 vezes, para trás e para a frente”. Em 2001 tinha apenas 25 anos, mas lembra-se bem do nevoeiro de cinza no Ground Zero.

Joe reúne-se todos os anos no dia 11 de setembro com os colegas que estavam juntos naquele dia no escritório. Esteve várias vezes no Ground Zero e assinalou lá o 10.º e o 20.º aniversário, mas não este ano. “Já faleceram 13 amigos. Ainda é um grande choque para todos”, justifica.

“Lembro-me dos apitos dos rádios dos bombeiros que tinham falecido”

Na Ferry Street, a meia-hora de comboio do World Trade Center, o português é uma das línguas mais faladas. Basta olhar para as montras e para as caras. Estamos num pequeno Portugal do outro lado do Rio Hudson. E muitos têm histórias para contar de um dia que não esquecem. É o caso do capitão da polícia de Newark, Maik Alexandre — a mãe não sabia escrever Michael, daí a opção menos óbvia na escolha do nome.

Maik Alexandre, que fala com o Observador impecavelmente fardado, lembra-se desse dia como se fosse ontem: “Estava a ter aulas na Academia de Polícia quando o primeiro avião embateu numa das torres e pensávamos que tinha sido um acidente. Quando o segundo avião se despenhou na torre sul, quase 20 minutos depois, soubemos que estávamos em guerra”.

Maik Alexandre começou por ir no carro da polícia, a fazer de batedor, para que as ambulâncias chegassem o mais rapidamente possível a um dos cinco hospitais que existiam em Newark na altura. “Fiz esse percurso mais de 60 vezes, para trás e para a frente”. Em 2001 tinha apenas 25 anos, mas lembra-se bem do nevoeiro de cinza no Ground Zero: “Não conseguia ver quase nada. O ar estava cheio de pó e vidro.” Depois, o que recorda melhor é do cheiro. “Era o cheiro de um corpo queimado, mas não era um… Eram milhares”.

As recordações vão surgindo à medida que conversa com a Rádio Observador. “Lembro-me dos apitos dos rádios dos bombeiros que tinham falecido. Alguns eram altos, significa que estavam por cima dos escombros. Outros baixinhos. Estavam enterrados e as baterias estavam a descarregar. Por isso, começavam a apitar”. Passados dias, ainda se ouviam esses apitos por entre os escombros.

Nesta emissão especial da Rádio Observador, em Nova Iorque, falámos com muitos portugueses e luso-descendentes. Em três horas de emissão em direto, foram feitas 11 entrevistas, que pode ouvir aqui.

Nova Iorque continua a ser a grande metrópole, uma cidade imensa, inundada de luz, cores, odores, mas tem uma ferida por sarar. Na zona de impacto daquele dia, abre-se um buraco para onde escorre água de forma ruidosa. Os nomes de 2.983 vítimas estão gravados em painéis de bronze do memorial dos atentados de 11 de setembro, onde os discursos estão proibidos. Entre essas quase 3 mil vítimas estão 9 portugueses: António Rocha, Raymond Rocha, Manuel da Mota, Christopher Mello, António Rodrigues, João Aguiar Jr., Dennis Gomes, Carlos da Costa e Mark Jardim.

A emissão especial da Rádio Observador em Nova Iorque teve o apoio da Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento