Os espectadores portugueses só há pouco conheceram o trabalho de Ali Asgari (Teerão, 1982), desde Divina Comédia, estreado este ano, em Abril. Asgari é cineasta há uma década. Tem firmado obra segura, em crescendo, divulgada nos principais eventos da Europa. Chega agora, por fim, a competição principal de um grande festival, e traz presente que é experiência vivida de hoje, de notícias que todos os dias nos entram pela casa adentro — às tantas, alguém coloca em cruz, de alto a baixo, fita adesiva numa porta envidraçada, não vá uma bomba de Trump cair por ali e deixar tudo em estilhaços. E a vida continua… Tem de continuar.
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Asgari tem acrescentado frescura à cinematografia iraniana, uma das mais valiosas do planeta. Os persas têm jeito para os filmes, não há nada a fazer. Desta vez, Asgari pediu ao excelente Missagh Zareh (o oficial de justiça que protagonizou A Semente do Figo Sagrado, de Rasoulof) que interpretasse Arash, um médico com vontade de dizer basta a si próprio. Para ele, a gota de água transbordou com os feridos que ele socorreu quando lhe chegaram a sangrar das manifestações contra a polícia. Valeu-lhe, na clínica, raspanete decisivo do chefe: as autoridades não gostaram, querem pôr trancas à porta.
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A personagem principal de A Bit of Light decide suicidar-se. É quase impossível não pensar em O Sabor da Cereja, de Abbas Kiarostami, e na personagemque procurava o mesmo fim. Tinha essa referência presente quando fez o seu filme?
Claro. Kiarostami é uma das minhas grandes inspirações. Há dois realizadores que me inspiraram particularmente neste filme: Kiarostami e Nanni Moretti. Kiarostami, por O Sabor da Cereja, como diz. E, de Moretti, marcou-me para a vida O Quarto do Filho, que também fala das consequências de uma tragédia. Existe, contudo, uma diferença importante entre O Sabor da Cereja e o meu filme. Escolhi falar, não dos grandes dilemas que se colocam ao Homem, mas das pequenas esperanças, dos pormenores da vida que fazem a personagem continuar. É por isso que vemos tantos e tão pequenos gestos do quotidiano. Arash percebe que estão neles a resposta para tudo: para a guerra, a repressão, a falta de liberdade. Nada está resolvido.
Mas a vida é isso, os nossos pequenos detalhes, tudo o que fazemos sem nos darmos conta. Às vezes, perante todas as notícias e todas as coisas terríveis que estão a acontecer-nos, esquecemo-nos dos pequenos detalhes da vida. Esquecemo-nos da família. É o essencial. Queria que o filme transmitisse a sensação de que a vida é feita disso. Ao aceitar a tragédia, talvez percebamos o valor de continuar.
É curioso que o médico queira pôr termo à sua existência, sem esquecer que a sua missão — o seu juramento de Hipócrates — é salvar vidas. Pouco importado com o que o espera, paradoxalmente, ele continua comprometido com a vida dos outros.
Ele sente constantemente que a vida o persegue. É isso que acontece também na cena com o homem ferido. É esse o contraste: o médico quer morrer, mas a vida não deixa. A vida continua a vir ao seu encontro. A mulher que precisa dos medicamentos, o homem ferido, as pessoas que precisam dele… Há sempre alguém a chamá-lo de volta.
Não há algo de absurdo nessa ideia?
Para mim, toda a ideia do filme é um pouco absurda. O médico está a tentar convencer os outros de que quer suicidar-se. Foi daí que o filme partiu, em parte. Mas, depois deste mês de Janeiro, deixe-me que lhe diga: a situação no Irão tornou-se realmente triste e deprimente. Eu tinha imaginado A Bit of Light de outra maneira, a atirar para a ironia, como os meus dois filmes anteriores. Mas percebi que, naquele período, era impossível fazer uma comédia ou algo desse género. Ao mesmo tempo, fui introduzindo pequenas piadas, porque elas também vêm da vida normal, do quotidiano. Muitos dos diálogos que ouvimos no filme são coisas que acontecem realmente na sociedade. Queria, de alguma maneira, normalizar um pouco a amargura da situação que a personagem atravessa.

O filme também transmite, com muita evidência, a pressão exercida pelo Estado iraniano. O homem ferido, por exemplo, tem medo de ir ao hospital porque pode ser preso. Estes detalhes vêm de coisas que ouviu?
A maior parte das coisas que acontecem no filme vem de experiências minhas, ou de coisas que me contaram. A ideia do protagonista ser médico surgiu depois de eu falar com um amigo que é médico, de facto, e tratou manifestantes que ficaram num estado lastimável. Esse amigo perguntava-se a si próprio qual era o sentido de tudo aquilo. Passaram-lhe muitos cadáveres pela frente. Foi então que comecei a pensar na personagem de um médico que queria suicidar-se. Então não é que descobri que a taxa de suicídios entre médicos no Irão está muito acima da média? É uma coisa horrível: pessoas que passam quase metade da vida a estudar e que, quando finalmente chegam à profissão, deparam-se com uma vida que em nada corresponde às expectativas que tinham.
Porque é que Arash está rodeado de plantas?
Ele está rodeado de vida, mas só se dá conta disso mais tarde. A vida está sempre à espreita, nesses pequenos elementos.
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Há outro médico no filme que funciona quase como o oposto do protagonista: não quer saber do que está a acontecer. Recusa-se a reflectir sobre o que o rodeia. Acho que o reconheci…
Fui eu que o interpretei, mas tirei os óculos! Essa personagem é um símbolo de muitas pessoas no Irão. Há muita gente que, simplesmente, não quer saber. É aquela ideia egoísta do costume: os outros que paguem o preço, desde que não me tirem da minha zona de conforto. Esse médico representa o lado mais triste, mais resignado, da sociedade iraniana, quanto a mim.
Foi por isso que o interpretou?
Ah! As circunstâncias foram muito particulares a nível de produção. Nós fomos filmar na Turquia e, basicamente, perdemos quase todos os nossos actores. Não podiam sair do Irão. Era demasiado perigoso para eles. Exceptuando três dos intérpretes principais — o irmão mais velho, a irmã mais velha e a irmã mais nova — praticamente todas as outras pessoas que aparecem no filme eram parte da equipa técnica. O rapaz mais novo, por exemplo, é o meu operador de som. A mãe é a directora de arte. Mas eu já tinha trabalhado com não-profissionais. Isto também é algo que vem de Kiarostami, que aprendi com os seus filmes. Mas, no último dia, para a última cena, não tínhamos mais ninguém que pudesse representar aquela personagem. Então disse: “Está bem, faço eu.”
Este é também o primeiro filme que menciona os recentes bombardeamentos dos americanos. Foi por isso que a rodagem aconteceu na Turquia?
Começámos a filmar em Teerão antes da guerra. Dois ou três dias depois, vieram os bombardeamentos. Continuámos, mas de repente começaram a bombardear tudo, por todo o lado, e tornou-se impossível filmar. Um dia, durante a rodagem, as bombas caíram a cem metros de nós. Partiram as janelas todas e a casa tremeu durante alguns minutos, como se fosse um terramoto. Toda a gente ficou assustada. Percebi então que tinha de ir para a Turquia. Mas as cenas de exteriores são todas em Teerão.

Sente-se ameaçado no seu país, como tantos outros cineastas?
Não tenho uma resposta objectiva para isso. Os meus filmes não são directamente políticos. Falam dos efeitos secundários da política e da forma como ela afecta a vida das pessoas. Mas, no Irão, tudo é político. Um amigo meu foi preso porque usou a Internet durante a guerra quando ela foi cortada. Ele tinha acesso ao Starlink e foi apanhado. Até usar a Internet se torna um gesto político, está a ver? Ser motorista de táxi no Irão é igualmente uma actividade política. Os táxis são controlados pelos serviços secretos de segurança e quando entramos neles, é melhor não abrir a boca.
A personagem da mãe de Arash parece ser o último obstáculo entre o protagonista e o suicídio, concorda?
Tenho uma relação muito próxima com a minha mãe. Toca-me que tenha reparado nisso porque, na verdade, a faísca inicial para este filme veio da minha relação com ela. Durante os ataques em Junho, telefonei à minha mãe e disse-lhe que estava muito triste com o que se estava a passar, foi quando ela me disse: “Então vem para aqui, para a minha casa.” Eu estava a meia hora de distância. Quando cheguei, ela tinha acabado de sair. Tinha ido comprar pão fresco. Quando voltou, fez umas bolachas e chá. E ficámos ali, juntos, a comer as bolachas, tomar chá, enquanto ouvíamos o som das bombas. Nesse momento pensei: como é que podemos estar a passar por esta tragédia? No Irão, a vida e a tragédia estão sempre a acontecer ao mesmo tempo. É por isso que senti que talvez fosse este, afinal, o sentido da vida: aceitar a tragédia e continuar.
O filme mostra também uma sociedade iraniana profundamente dividida. Há pessoas em Teerão que estão felizes com os bombardeamentos americanos. Também isso está em A Bit of Light.
É verdade. É importante falar disso. O Irão está hoje profundamente dividido. Há quem fique feliz em ser bombardeado, como o relato daquela pessoa que, às tantas, diz desejar que uma bomba caia na casa que deixou, assim, pelo menos, poderia poupar na demolição. Às vezes perguntam-me: “És contra esta guerra?” E respondo: “Claro, evidentemente, sou contra a guerra.” Zangam-se comigo: “Então, é porque estás do lado do Governo iraniano…” Afinal, o que significa tudo isto? Porque haveria eu de ficar feliz por Trump bombardear a minha casa? Vai ele trazer-me a democracia através das suas bombas? É absurdo. E é este absurdo que estamos a viver hoje na sociedade iraniana.
No final, somos presenteados com uma canção curda. É um momento decisivo?
É, sim. Sabe porquê? A música curda precisa de mais do que uma pessoa. Não se dança sozinho. Claro que uma pessoa pode dançá-la sozinha, mas perde o sentido. É uma música que cria uma espécie de empatia na família. Naquele momento, o médico abandona definitivamente o seu ímpeto suicida. Muitas músicas podem ser dançadas a solo, mas a dança curda é de grupo, e muito conhecida no Irão. Por isso, penso que todo o filme caminha em direcção a esse momento: uma família a dançar naquela situação, debaixo das bombas, da guerra, da repressão. Que se dane: vamos dançar!
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.